10.12.15


ESCREVER DE VERDADE

Não sei se a mania começou durante as aulas de redação do colégio ou nas confidências cabeludas dos meus diários. Mas tinha que ter começo, meio e fim. De uma só vez. E logo. A urgência dos meus textos sempre apressou a minha produção. Era como se eu não soubesse que também se podia escrever comprido. Ou dançar valsa. Ainda que fosse muito mais afeita a tangos e tragédias.
Se o conto pedia um, dois, três parágrafos, seriam um, dois, três parágrafos, escritos numa talagada só. Pá-pum. Se o conto pedia uma, duas, três páginas, seriam uma duas, três páginas, inteiriças e compactas, mesmo que o sol raiasse e se pusesse de novo e de novo. Depois, intensas releituras e correções até que cada respiro fosse escrutinado ou cada eco legitimado como alegoria estética repleta de frufrus.
Mergulhava num exercício obsessivo e prazeroso, onde a criatura mais longe de mim era eu mesma — estado de espírito místico e imersão maravilhosa que os americanos chamam de flow. (Segundo os sites duvidosos que andei pesquisando, pode-se atingir o flow em todas as práticas possíveis, desenhando caninos de vampiro em figuras de revistas de fofocas, lavando a louça da festa passada (inclua aqui dezenas de bitucas de cigarro empapadas em cerveja morna), cantarolando Paula Fernandes (“Um ser amor”, sim) ou mesmo jogando Free Cell em seu Windows 98 velho de guerra.
Acho que a primeira vez que atinei para a existência de outro lado, foi numa fala de uma escritora sensacional, há uns bons anos, na Livraria da Vila, em São Paulo. Enérgica, ela dizia não entender como algumas pessoas metem conto e romance numa gaveta só, num escritor só. Para ela, os o dois formatos compunham categorias extremamente distintas de expressão. “Inclusive”, pontuou, “penso que o conto seja muito mais difícil, ele exige mais domínio e controle do que se quer narrar ali”.
Tomei um susto! Então escrever textos curtos podia ser visto como uma atividade árdua, elaborada e admirável? Até aí, mesmo já sendo contista na época, eu pensava como 99% da humanidade letrada, dos arengueiros literatos aos editores brasileiros: “O conto é uma expressão menor”. Ou, como profecia do mercado: “Não vende”. Microconto então! Melhor contrair leishmaniose.
Como contista, cansei de ouvir: e o romance, quando sai? Você não pensa em alongar sua narrativa? É mais fácil escrever esses continhos, né? Quando você vai começar a escrever de verdade?
Pois tenho uma resposta: a história pediu e falou mais alto. Por isso estou escrevendo um romance há seis meses e tem sido no mínimo divertido. Tem sido muito angustiante também. Tive que me reinventar por completo. Tive que aprender manobras novas. Tive que traçar regras, prazos, metas. Dois pra lá, dois pra cá. Até lá, espero não esmagar o pé do meu par fantasmal, tropeçando em seu dedão ectoplasmático com passinhos vacilantes e capengas. Espero um dia terminar meu romance de fôlego curto ao lidar dia após dia com o desespero de não ter tanto controle sobre a história que escrevo (outra versão diferentíssima da história que pensei, e por isso, não mais tão minha, e por isso, muito melhor que a original).
Depois, findo tudo, o plano é diminuir gradualmente o número de páginas, até que eu seja capaz de escrever um conto e depois, quem sabe, possa arriscar um aerado poema e depois, me dê por satisfeita com uma só frase e siga assim, escasseando as palavras, até que finalmente consiga não escrever mais nada.