29.7.12

Nuno Ramos perfilado no Ilustríssima de hoje. Depois publico a versão inteira aqui.
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Como de prometido, eis a versão inteiriça e bruta do perfil do Nuno:


Parte um (maio de 2011 a setembro de 2011)
Nanquim ou o contrário disso

CAMADA SOBRE CAMADA SOBRE CAMADA
Nuno ressona no sofá da biblioteca do pai. É lá que passa grande parte do tempo. Seu pai está morto e Nuno sonha com bolhas metal líquido, bolas de futebol enterradas no gramado, burricos musicais, lagos de sabão, urubus voando sobre sambas. Neste momento ele sonha que está de pé diante de uma cerca, ao lado dos três filhos, João, Vicente e Miguel e sua mulher Sandra. A família Ramos observa uma manada de búfalos. Os búfalos correm em baixa velocidade. A temperatura da ilha é morna. João, o filho mais velho, faz uma piada sobre a trajetória do cuspe, e todos riem. Nuno coça o nariz. Está inquieto. Levanta do sofá. Alma velha em corpo novo. “Tive que me fazer de homem feito.”

IR PARA FORA CAIR PARA DENTRO
Um homem aborda Nuno após uma pequena fala no mam do Ibirapuera: “Pode dar um autógrafo para minha filha?”. Nuno saca a caneta e pergunta o nome dela. “Luiza, ela tem dez anos.” Nuno sorri, entrega o autógrafo e em seguida cumprimenta uma senhora ruiva, um adolescente barbudo, um senhor com ares professorais vestido de pulôver e dezenas de pessoas entusiasmadas com sua presença. No meio da turba, Nuno encontra sua mulher Sandra e salpica um beijo nela. Depois de despedir-se, une-se à mulher e aos filhos, some no mar de gente e ganha o parque rumo ao carro vermelho. “A produção do Nuno é da ordem do encantamento”, diz Alberto Tassinari, amigo e crítico e de arte, “o universo do Nuno é um conto de fadas.”

CURVA RETA CURVA RETA CURVA RETA
“O sol fala comigo palavras humanas, o sol é uma puta.” Nuno declama esses versos diante da série de desenhos mais recente que anda produzindo em seu ateliê, no Cambuci. A frase citada com paixão é pinçada do livro Memórias de um doente dos nervos do famigerado esquizofrênico, Schreber, que intrigou Freud, Benjamin, Lacan e tantos outros. O livro consta da lista do artista como um dos últimos lidos, logo depois do Carlos Castañeda, A erva do diabo.
Em meio a garatujas de sóis negros, pequenas múmias perfiladas, raios visíveis e invisíveis, possíveis laterais de pirâmides e asas de anjo douradas, a série de pequenos desenhos denominada “Munch”, cujo número de originais fechará possivelmente em 78, expurga uma das maiores tristezas de sua vida: a morte da mãe. A precisão dos números homenageia a idade que ela tinha quando morreu, ainda neste ano. “Meu trabalho tem um investimento de energia violento. E é só no retorno dessa energia que enxergo um sentido nele. É sempre ir para fora e depois cair para dentro.”
Seu telefone toca e Nuno atende quem parece ser um técnico de montagem em uma galeria: “Quanto de espaço até a parede você vai me dar?” O imenso galpão de teto de zinco, que funciona como seu ateliê há quase seis anos, abriga grande parte de suas obras conhecidas pelas proporções monumentais e escultóricas. “Um dia a minha vizinha de ateliê perguntou para que escola de samba eu trabalhava.”

“VOU ME VESTIR DE SUJO”
Quando adolescente, era bom de drible, escrevia belos poemas e pintava quadros horríveis. Depois que o pai morreu, Nuno começou a usar a biblioteca do pai, emérito professor de literatura francesa da usp, como quarto de dormir e, aproveitando o endereço da biblioteca, apartado da casa da mãe, convidava as meninas para lá pernoitar, “era quase minha casa, só não tinha cozinha”.
Ele também gosta de inventar comidas. Livros e panelas são suas maiores paixões. “Não tenho cuidado com livros, leio amasso, melo de suco, empresto, esqueço. Mas livro é minha paixão, quando estou deprimido, corro para uma livraria. E cozinhar é uma das coisas que mais gosto de fazer.” Um momento feliz da vida é quando cozinha aos domingos com os filhos, e isso acontece sempre. “O problema é que meu apreço estético com os pratos não contribui em nada para o sabor”, ri.
Rodrigo Naves, amigo e crítico de arte, cita em ensaio de 1991, intitulado “Um empalhador de realidades”, uma observação sobre “a incongruência de suas junções precárias” produzidas além da cozinha: “O aspecto grosseiro dos quadros advém em boa parte dos traços intencionalmente postiços que marcam a conformação dos volumes. Metais, tecidos e matérias plásticas podem muito bem andar juntos — os automóveis, por exemplo, os reúnem com desenvoltura. A questão está no tipo de confronto produzido nesses trabalhos. Incapazes de se anularem uns aos outros — pois deixaram de ser revestimento para serem eles mesmos —, aqueles materiais exibem um excesso de artificialidade agonizante, que as crostas de pigmento não conseguem ocultar ou diminuir, parecendo ser antes uma secreção provocada por relações conflituosas”.

PA PAPARAPA PAMPAM RARA PAM PA RA RA
Em torno de uma velha mesa apinhada de latas de tinta, chapas de acrílico, arames, bolhas de vidro, carvão, folhas de ouro, prata, estênceis de letras, barras de cobre etc., Nuno executa a pintura do dia e atende as chamadas do telefone que trina a cada quinze minutos. Com uma mão segura o telefone de visor quebrado, com a outra alterna o pincel ou a espátula ou o estilete. Mergulha o pincel na lata de terebintina, agita uma garrafa de cola, corta um molde do que parece ser pvc, se necessário, imobiliza o pedaço de cartolina com o cotovelo cuja extensão do braço se enrijece para segurar o celular que agora está equilibrado entre o ombro e a orelha esquerda. No meio de tudo isso grita com doçura para sua assistente Bianca procurando a tesoura, indispensável para o corte de um pedacinho de pelúcia rosa choque.
Uma exposição em Paris. A instalação de uma obra na casa de um comprador. Os documentos necessários para a documentação da tia-avó que morreu: “Parece que morrer hoje em dia é um fracasso pessoal. A culpa é sempre do morto, já percebeu?”. Bianca está no escritório resolvendo pendências, respondendo e-mails. Nuno está “vestido de sujo”. Camisa e calça velhas, botas igualmente desgastadas, tudo sujo de tinta. Quando o telefone não toca, Nuno cantarola repetidas vezes uma melodia nova que despontou na sua cabeça mais cedo. “Tenho que ficar cantando, senão esqueço.”

“NÃO SEI PERDER TEMPO”
São 25 anos de carreira. E Nuno vive fugindo do que fez. Continua a se encantar com a matéria e não consegue perder tempo. Depois de se graduar em filosofia na usp resolveu montar com mais quatro amigos o ateliê Casa 7 — um grupo de artistas dos anos 1980 que ganhou imediata projeção no cenário das artes plásticas. “O papel sugando a tinta me pegou”, lembra. Depois emplacou em várias Bienais, vendeu trabalhos no mundo inteiro, ergueu monumentos, compôs dezenas de canções, publicou seis livros — dentre eles Ó, vencedor do prêmio Portugal Telecom de Literatura de 2009. Acaba de relançar seu primeiro livro Cujo, pela editora 34.  (Ele não para e quando tem insônia, sempre lê até o dia clarear.) Agora está tramando uma exposição com tanques de lama e telhados de sal e terra em Belo Horizonte. Lama branca, lama preta e lama lama derramadas em quadrados agigantados, por cima deles telhados afundados. Carminho, dono da fundição e amigo de Nuno há anos, está empenhado no novo trabalho. Tenta decifrar a melhor maneira de criar uma telha de sal. “Aquilo nasce da cabeça dele, ele gosta de conhecer a personalidade da matéria e caminha até um passo antes da destruição. É como se ele parasse na beira do abismo.”

NUNO A NAVIO
Enquanto as palavras, pinçadas de um título de Poe, “Poço” e “Pêndulo” são professadas, Nuno está lendo seus contos e uma senhorinha canta “Barracão de Zinco”. Nuno lê o rugido de uma leoa e ao mesmo tempo pinta cálculos encaracolados na cabeça: precisa mandar um de seus quadros escultóricos e sem nome para a Basileia. A navio. É preciso pensar como soldar os ferros que despontam assustados, como não quebrar os vidros colados ao contrário, como encaixar um cano coberto de pelúcia no outro, como montar um quebra-cabeça monumental. Na feitura deles, não vale subir escadas. Nuno deve levitar.

“TUDO MEU DURA MUITO”
Nuno escreve “para escapar”. Está em vias de publicar seu primeiro livro de poemas, Junco — com data de lançamento prevista para o dia 20 de outubro deste ano —, alguns antiquíssimos, cravado de imagens de tocos soltos ao longo da praia e cachorros mortos na estrada. Também finalizou “Sermões” a ser lançado ano que vem. Um longo poema cantado em versos eróticos, que narra a trajetória sexual de um professor universitário e, entre milhões de caminhos misteriosos que toma — uma mulher com um pênis dentro da vagina —, digere a morte recente da mãe. “Era muito ligado a ela, mas sua morte me causou uma tristeza não destruidora.”

NUNO DANÇA COM A MORTE
Em 1992, seu trabalho “111”, uma reação à exposição dos mortos do massacre do Carandiru, lhe garantiu visibilidade nacional. Hoje aos 51, depois de perder pai e mãe, Nuno se depara com ideia de que em sua linhagem será o próximo. “A morte dos outros lembra a nossa própria morte.” Olha ensimesmado para a quantidade infindável de pinturas em seu imenso ateliê. No canto da parede, um violão velho com as cordas soltas. Nuno, vestido de sujo, fala da morte com reverência — dois urubus planando sobre sua cabeça — mas ideia que se tem é de que a morte não fala dele.

MÁQUINA DE FAZER SORVETE
João, o filho mais velho, está de passagem no Brasil. Trouxe para os dias dos pais, uma máquina de fazer sorvete. Eles todos se reuniram no último fim de semana na casa de praia, como de costume. Estamos tentando fazer um sorvete de jabuticaba, mas dessa vez ficou muito mole. “Uma hora a gente acerta.”


Parte dois (março de 2012 a junho 2012)
Vida Comum ou Cerveja

CASA DA MÃE, CASA DA AVÓ, CASA DO CASAMENTO
No sofá velho, pernas cruzadas, Nuno debate com o artista Eduardo Climachauska se os extratos de cartão de crédito que a Marina doou pertencem à “Vida Comum” ou não. Todos os objetos do mundo já pertencem a uma determinada categoria de antemão. Só é preciso encaixá-los em uma delas. As categorias não têm nomes, mas são quatro: uma que faz associação com a vida comum e tem a cerveja como condutor, outra que é o contrário desta e tem o nanquim dissolvido n’água como líquido, uma que representa o mundo rústico e tem a lama como lubrificante e a última que se associa ao luxo e leva a cal como untura. Numa sala de 120 m2 da galeria Anita Schwartz, cada estante exibirá o material de uma categoria específica e, no meio delas, conectados a condutores cheios dos respectivos materiais elementares, dois globos da morte à espera dos motoqueiros.

NUNO MONSTRO
No telefone, Marcia Fortes é sucinta: “Ele é um monstro”. Amiga e representante de Nuno há doze anos, a galerista da Fortes Vilaça também o compara a um alquimista maluco ou a menino muito moleque: “O trabalho do Nuno desfigura definições categóricas há mais de duas décadas. Sua produção é tão prolífica e variada que sempre brincamos que são cinco artistas trabalhando em um mesmo corpo, interconectados por preocupações e interesses comuns: desafiar o limite dos materiais eu listaria como o maior deles. Nuno estica ao máximo o limite do tangível e produz obras de uma fisicalidade arrebatadora”. Marcia ainda adianta uma boa nova: Nuno fez a cabeça da suíça Francesca Thyssen (colecionadora de arte e representante da quarta geração de uma família de colecionadores de arte). No ano passado, depois de conhecer a série de esculturas “Pagão” (instrumentos musicais fossilizados em pedra sabão) no stand da Fortes Vilaça, na Basileia, Francesca veio ao Brasil para conhecer mais a obra de Nuno. E ficou fascinada. Estendeu o encanto para um convite: em maio do ano que vem Nuno integrará o acervo do novo museu Thyssen Bornemisza Art Contemporary (tba 21) em Viena. Algo que, segundo Marcia, será crucial para a expansão da obra de Nuno d’além mar: “Nuno será daqueles grandes artistas cujo reconhecimento mundial se dará num estágio já maduro de sua trajetória. Sem problemas com isso. Foi assim com outros contemporâneos, Louise Bourgeois, Cildo Meireles etc. Ele começa a ocupar um lugar no circuito internacional que é seu de mérito e direito”.

PAULINHO DA VIOLA
Dois outdoors gigantescos dispostos na área de convivência do sesc Pompeia. A  estrutura das peças de 10 X 5 m é uma soma de madeira, prego e areia de fundição pilada. Neles, a inscrição “solidão, palavra”, cravada no painel arenoso, tem uma versão para fora e outra para dentro, “como uma tumba”, explica no celular. Nuno integra a exposição “desobjetos: a memória das coisas”, conjunto de trabalhos agrupados na Mostra sesc de Artes 2012, e fica aberto ao público até o dia 19 de agosto. (Ou mesmo antes, se se desfizer em pó pelo chão.)  

PRA LÁ DE NEYMAR
Um objeto de vidro cai da terceira prateleira. “Acabei de salvar com o pé, acho que nem o Neymar faria.” Como se fosse a própria Taça da Libertadores, Nuno ostenta brioso uma taça de espumante, pronta para ser preenchida por água com nanquim. Eduardo Climachauska, ou mesmo Clima, gargalha com o amigo “ainda bem que não quebrou”. A taça de espumante integra centenas de itens numa lista quilométrica e quimérica: peruca, ancinho, vaso sanitário, umidificador, as cinzas de uma edição de As Pupilas do Senhor Reitor, molde de gesso de arcada dentária, violão incinerado, tulipas negras, anão de cerâmica, feno, motor, urinol, troféu, aquário, pneu, pato de porcelana, crina de cavalo, lustre, galo português, vasilhame de vidro, uma edição de Manual para Tratamento de Moléstias, copo americano, joio, disco de vinil do Pancho López cujo sucesso Quiereme Mucho está estampado na capa, etc. Encimado em suas respectivas estantes, vídeos educativos da estirpe de “Como pintar girassóis” ou “Como destrancar o carro usando uma bola de tênis” estarão ao dispor do visitante. Até que quinze dias depois tudo seja destruído.

“O GLOBO DA MORTE DE TUDO”
A exposição cunhada de “O Globo da Morte de Tudo” abrirá em novembro, no Rio. Antes dela, em agosto, Nuno abre exposição solo em Belo Horizonte. Intitulado provisoriamente de “Rua Alvarenga”, o trabalho pediu para que o piso da galeria fosse destruído. Assim, três blocos agigantados poderão comportar três tipos de lama, e nelas, afundados, três cortes de três casas (a da mãe, da avó e a primeira do casamento). “A ideia de usar as plantas dessas casas me veio bem depois. Passava todo final de semana na casa da minha vó Jovina, que era comunista fervorosa. Ela tinha um pé de jabuticaba no quintal e costumava dizer que ele só ia florir depois da Revolução. Virou uma piada entre a gente. A Revolução nunca veio, mas o pé floriu no ano em que ela morreu.”