13.2.12

Maria Poças olha pelo retrovisor, saca o batom vermelho da bolsa, pinta a boca e, num lampejo de 16 mm, vira Céu. No retrovisor, o asfalto quente refletido conta a história de uma estrada que se bifurcou em várias e acabou virando o seu mais novo disco Caravana Sereia Bloom.
Adiante, na estrada, ela vislumbra um tufão. Para trás, um incêndio cenográfico. Está tudo rascunhado em sua pequena caderneta. Céu vaga pelo norte e nordeste do Brasil ou pelo sul da América Central. Registra paisagens sonoras, colhe sementes de canções. Estuda. Compõe. Dança. Canta. Segue a estrada, mesmo sem saber onde ela vai dar. É segredo.
Céu não está só. Ladeada por uma caravana colorida, cantou o canto da sereia e ajuntou uma turma oriunda do nordeste do Brasil, além de seus velhos e bons músicos. Uma equipe que saiu a duras penas da zona de conforto em direção à zona ambígua da estrada e, que por fim, desabrochou junto nesse road disco.
O repertório, que ela desenhou na caderneta, dança com o vento. Céu cintila entre as chamas e nos apresenta seu mais novo trabalho: Caravana Sereia Bloom.

Céu da estrada, céu na estrada
Produzido por Gui Amabis, o disco arranca com Falta de Ar, cuja sonoridade sublinha, com seu futurismo-retrô reverberado pela guitarra de Fernando Catatau, a reflexão lírica sobre a megalomania do homem moderno. O som de estação de rádio am mal sintonizada prepara o terreno para o primeiro número de amor rasgado, Amor de Antigos. Em seguida, Asfalto e Sal finca a bandeira temática do álbum, esse pequeno elogio à errância, curiosa e manhosamente esparramado numa caminha de reggae, como que lembrando de onde essa caravana saiu. 
Eis que surge o Retrovisor. Letra e música de Céu, abre com uma programação de bateria eletrônica bolero-beguine e se derrama bluesy num clima de estrada aberta, traçada pelo timbre e frasismo da guitarra de Dustan Gallas, instaurando uma atmosfera de ressaca de viagem. No mesmo caminho, Teju na Estrada segue o mapeamento da música latino-americana, e é uma das três vinhetas do disco junto com Sereia e FFFree, essas duas últimas feitas e executadas só por ela no Garage Band. 
Uma das cinco músicas que têm participação de Pupillo (baterista da Nação Zumbi e companheiro de Céu no projeto coletivo Sonantes), Contravento de Lucas Santtana e Gui Amabis, já encontra a caravana tropical no nordeste brasileiro, paquerando com a África, e ainda contaminada de América Central. Em Palhaço regravação de Nelson Cavaquinho, Céu canta acompanhada do pai, o compositor e músico Edgard Poças, que depois de um resguardo deliberado, atende ao pedido da filha de voltar ao “palco” numa interpretação tocante dessa valsa a favor do compromisso do artista, que deve ser maior que qualquer dor de amor ou acidente da estrada. 
Em You Won't Regret it, regravação dos jamaicanos Lloyd Robinson e Glen Brown, joia do proto-reggae da década de 1960, Céu se deleita nos seus jamaican credits, já incontestáveis desde Vagarosa. Com letra e música autorais, Baile de Ilusão traz outra vez a maquiagem como arma pra batalha. A condução de Curumim na bateria e os metais de Thiago França e Nahor Gomes ambientam o baile em algum lugar entre a Iguatu cearense e a Itália sessentista de Rita Pavone e Sergio Leone. Mais resíduo de Jamaica em Streets Bloom, de Lucas Santtana, canta a impregnação do artista pela estrada. A Céu malemolente, desde o primeiro disco de 2005, aparece em Chegar em mim de Jorge Du Peixe da Nação Zumbi, que fecha a caravana e sugere onde ela deve chegar. É a única faixa produzida por Rica Amabis e, além do compositor Du Peixe, traz outros  membros da Nação: Lúcio Maia na guitarra, Dengue no baixo  e Pupillo na bateria.

Rescaldo
O fogaréu se dissipa. Como em um fotograma de Karin Aïnouz, Céu parte em direção ao vértice da estrada. O sol equatoriano se põe e sua maquiagem está borrada. Saindo de um Vagarosa mais uterino, para um Caravana Sereia Bloom mais mundano, mais maduro, mais sangrado, mais segredo: onde essa estrada vai chegar? Se, como ela canta a plenos pulmões, existe uma estrada nela, acho que já vislumbro ao longe, sobre o asfalto quente, o ponto de partida: Céu a cantar.


Natércia Pontes e Arthur Braganti