19.12.11

Fortaleza anoitece 

O céu amarela, encarna e as nuvens são magras. O ano é 1986 e estou na varanda do edifício Santa Terezinha na Barão de Studart. O vento bate revolto em meus cabelos grossos de criança: nas pontas dos pés, estou olhando para as costas do Hotel Esplanada, cujas estruturas sólidas anos depois seriam transformadas em outro lugar.

Já não sou criança e meus cabelos estão mais macios. O tempo muda — é este vento incessante? — as construções ruem, viram pó. Meus amigos do Picapau Amarelo, do Vila, do Colégio Batista, grande parte, já casaram, tiveram seus filhos, compraram seus apartamentos — esses apartamentos novos, batizados com nomes engraçados, vilas francesas ou praias sudestinas — guarnecidos por fora de cerâmicas brancas, com piso de granito, cozinha americana e varanda com vista para outros apartamentos de semelhantes plantas: e tudo, mesmo igual, muda. É esse vento que não para de soprar?

Ainda estou em 1986. De biquíni na Praia do Futuro. Espero o garçom da barraca trazer uma coca-cola que dividirei no canudinho com minha irmã. A brisa bate constante e meus cabelos grossos, endurecidos pelo mar, salgam meus lábios em pequenas ricocheteadas. Eu era uma criança serelepe, de olhos vivos, sestrosa. Às vezes também introspectiva, como qualquer menino ou menina. E não tinha muita consciência da destruição. A vida parecia sempre a mesma, perene. (Vento assobiando nas esquadrias.) Ainda não havia me dado conta, tido uma consciência mais sólida, de que as coisas uma hora acabam e se transformam em outras. E isso é bom.

Lembro de um sentimento de destruição interior, um desapontamento muito antigo: não ter entrado na boneca Eva erguida no estacionamento do shopping Iguatemi. A boneca de dimensões agigantadas, um tipo de Gulliver mulher, uma super fêmea do Fellini. Depois de muito perguntar, com sede de mistério, soube que a Eva oferecia suas entranhas de plástico aos visitantes, que passeavam entre seus órgãos devidamente caracterizados e cujos movimentos peristálticos enchiam os olhos dos pequenos intrusos. Havia até um bebê, dentro do útero, com placenta e tudo. Até hoje, frustrada, queria emprestados os olhos sortudos de quem a visitou.

Depois queria meus olhos de volta, aqueles que percorriam a cidade de dentro do carro em movimento, parado no sinal. Avenida Santos Dumont, Estados Unidos, Abolição. A cabeça deitada no banco de trás, observando as copas das castanholeiras desfilarem ligeiras por detrás dos vidros — os olhinhos que investigavam frios as entranhas gosmentas das castanholas roxas e os órgãos acinzentados dos caranguejos. Os mesmos olhos vivos que observavam os caminhos que os meninos pobres da Beira-Mar traçavam com carvão nas partes brancas do antigo piso de pedra portuguesa. He-mans, super-heróis corpulentos, músculos descomunais, saradões.

Aí, pedia uma cana de açúcar fincada em rodelas no palito e, sentada em um banco da Beira-Mar, segurando o cacho de cana como se fosse um ramalhete, assistia ao mundo rodar, os gringos cantarem suas línguas, o pregoeiro anunciar seu produto, o vendedor de chegadinho tocar seu triângulo, a moçoila malhar as pernocas sob a lycra, o mendigo arrastar seus membros tomados pela gota, o vendedor mirrado simular o miado de um gato com uma borracha na boca, o Trem da Alegria passar apinhado de crianças e suas respectivas babás e os bonecos vivos dos personagens da Disney e do Maurício de Souza, todos meio encardidos e magros, porém amigáveis e animados com as toadas de um disco da Xuxa. (Lembro de ter recebido um abraço da Minnie e ido ao céu.)

Sentadinha também, mas no chão, assistia às peças hilárias do Augusto Bonequeiro e ria e gargalhava e tinha medo. E era tão bom. De repente, o cheiro forte da SUCAM invadia nossa casa, e eu e minhas irmãs saíamos correndo para os quartos, os narizes tapados, o riso solto — talvez o cheiro da fumaça da SUCAM fosse engraçado? Eu pedia, pai, pai, compra um sorvete, e uma ficha para jogar na sala de fliperama do antigo Iguatemi, sem ar-condicionado e com acesso livre para os adultos fumantes baforarem seus cigarros nos reflexos das vitrines.

O tempo passa, Fortaleza amanhece e anoitece, minhas pernas esticam e agora estou no antigo Búfalo Bill, mastigando com furor uma picanha sanguinolenta, mas de olho no mousse de chocolate que virá: o melhor mousse do mundo. Na volta para casa, meu pai alto declama: Sobrinhos do Capitão! — aquela sorveteria que já era. Como também já era a sorveteria do Cinquenta Sabores, na Beira-Mar e o próprio Búfalo Bill. Tantas histórias, tantas estruturas, implodidas sem dó nem piedade. (Acho que isso é uma espécie de benção. Esse desapego com o que passou. Passou, morreu, escafedeu-se. Acho que nós fortalezenses, estamos todos olhando para frente, e se não estamos é por causa do sol.)

O galo canta e estou de novo na Praia do Futuro, dentro de uma piscininha cavada pelas minhas próprias mãos. O mar está longe, calmo e meio cinza. O sol a pino. Sinto o suor perfumado com Sundown descer sobre minhas maçãs. Estou construindo um castelinho na borda da piscina. A areia mole escorre pelos meus dedos, o bloco desconjunto vai se formando e nele vou construindo uma base e depois uma espécie de torre que vai se afinando. Finco conchinhas lisas e sarapintadas de marrom para adornar. O castelo está quase pronto: meto o indicador na base para simular um portão. Deitada de bruços na piscina — a água morna esquentada pelo sol —, imagino princesas sereias que vivem por ali e cantam com a voz da Téti:

Balança o dia na rede azul do céu, 
Bate a varanda branca na rede azul do mar, 
Armada no céu azul do chão, 
Suspensa no ar, 
Nesta canção, 
Balança o dia azul.*

O sol se põe enciumado pelo céu na Praia de Iracema. (Quando foi que vaiaram o astro-rei na Praça do Ferreira?) Estamos, eu e minhas irmãs ainda de biquíni — o fundilho tomado de areia —, na praiazinha do Estoril. Mergulhamos de nervoso na pequena baía que se forma porque ainda não sabemos que queremos ir embora. (Os dedinhos magros e engelhados.) Mas os adultos estão todos lá, bebendo, cantando e gargalhando. Não adianta pedir para ir pra casa: eles vão nos olhar com aquelas caras de apaixonados, passar a mão fedendo a cigarro nos nossos cabelos molhados e nos iludir.

Vou me distrair arrancando os pistilos das papoulas vermelhas espalhadas pela cidade ou imaginar uma múmia perversa saindo do túmulo do Memorial Castelo Branco e assustando a população. Quem sabe ela não vira estrela do programa do Irapuan Lima? E se for garbosa, Garota da Capa, do Armando Vasconcelos? O saxofone do reclame da Eugênio Móveis me desnorteia. Preciso tomar Castaniodo, preciso ir até a Boris, coração?

Acordo súbito com um chuá de água salgada na cara. Estou na Beira-Mar, tênis nos pés, e o mar invade o asfalto. Os respingos são mornos e espumantes e assustam alegremente os passantes. Todo mundo sorri. Ao lado, uma família paulistana degusta camarão no abacaxi na varanda do hotel. Eles estão felizes, nós também estamos felizes e gritamos como os nossos ancestrais: iiiihhh!

Uma revoada de soldadinhos cruza meu caminho, interrompo a corrida e reverencio solenemente os elegantes insetos que mais parecem pequenas zebras. Depois deito sob o jambeiro florido para me sentir princesa. Mas princesa mesmo é a mulatona do Maracatu! Lá vem o cortejo, avia, menina!, vamos olhar daqui de cima que me contaram que ela é homem! Eita, lá vão eles todos pretos vestidos de dourado e prata dançando aquele passo elegante e lento. É bonito demais. Subiram a Rui Barbosa, que de tão alta deve ter sido uma duna. Vamos, menina, se despeça, diga até mais!

E a Rui Barbosa não tem fim? Tem, sim. A Rui Barbosa acaba no mar e se você subir, subir, vai chegar numa churrascaria chamada Parque Recreio. Lá, além de carne, podemos apreciar uns veadinhos tímidos que ficam enjaulados e comem folhas de mangueiras se você oferecê-las pela grade. Pai, olha o olho dele, é molhado e preto! Acho que ele é triste, pai.

(Meus amigos do Picapau Amarelo, do Vila, do Colégio Batista, onde estão todos vocês? Dentro dos seus apartamentos? O ar-condicionado está ligado? Vocês estão ouvindo a esquadria cantar com o vento?)

Algo me diz que minha infância está partindo no antigo aeroporto Pinto Martins. Eu e minhas irmãs acenamos da sacada — quando nenhuma parede nos impedia de ver os aviões decolando, correndo, aterrissando. Meus olhos eletrizados pelos aviões, pelos olhinhos tristes do veado, choram um pouquinho. O céu está tão bonito, azul escurecendo, céus dos books da Abafilm. Como num suspiro, ela, minha infância, subiu pesarosa a escada de ferro e sumiu dentro da aeronave. (A Téti está cantando?)

De novo, estou na varanda, nas pontas dos pés, no edifício Santa Terezinha. O Hotel Esplanada já acendeu suas luzes — ouvi falar que só ele tem gerador. O dia está morrendo e uma brisa mansa acaricia meus cabelos macios. Já não sou criança e percebo que minhas mãos, minhas pernas, minha cidade cresceram: o mar vai e volta comedido, os espigões brotam do asfalto, as castanholeiras caem, as papoulas sussurram, os soldadinhos tombam vencidos. Alguém grita da varanda que o Hotel Esplanada vai explodir. Tampo os ouvidos e suspiro: Fortaleza anoitece.

*Letra da canção “Balança o Dia” de meu pai, Augusto Pontes.


_________TEXTO PUBLICADO NO LIVRO VIVA FORTALEZA


            1986,  Fortaleza. Turma da alfabetização do Picapau Amarelo visita galeria de fotos. (Eu tô ali olhando para a câmera.) Imagem de Gentil Barreira.