23.11.11

Vitória, 27 de agosto de 1990 

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Daqui da janela do meu apartamento dá ver os outros edifícios, o mar, as avenidas, os morros e as praias e praças da cidade. De qualquer ponto do Hotel dá pra ver a cidade. Já falei que a cidade é cheia de curvas: no horizonte por causa dos morros e as ruas também fazem muitas curvas, na beira do mar e ao redor dos morros, e isso dá a Vitória um encanto especial. É bonito e surpreende a cada olhar, é outra em cada janela, a cada esquina. Isso torna a vista sempre outra, sempre nova. 


Mas aqui não há amigos para telefonar, nem filhas pra perguntar se já escovaram os dentes e então fica chata, apesar de bonitinha. 


É engraçado que nós podemos assistir na TV às mesmas coisas na mesma hora, vocês em Fortaleza e eu em Vitória ou em Brasília. Mas em qualquer dos lugares a TV é sempre a mesma e quer sempre a mesma coisa – justamente que a gente deixe de ver as nossas diferenças e semelhanças e conversemos sobre o que vivemos – e passemos a ver só ela, TV. Que coisa! Consegue! Em toda parte, tá todo mundo vendo a TV ou conversando sobre o que viu ou verá na TV. Não sou contra as novelas. Sou a favor dos meus assuntos. É só isso. O resto é pantanal.
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(Trecho de uma carta do meu pai, Augusto Pontes, para as filhas e mulher, Conceição.)