31.10.11

23 de setembro de 1912

 Esta história, O Julgamento, eu a escrevi de um só fôlego na noite de 22 para 23, das 10 horas da noite às 6 horas da manhã. Com dificuldade consigo tirar de sob a mesa as pernas adormecidas, de tanto estar sentado. O esforço e a satisfação terríveis ao ver como a história tomava forma diante de mim, como se adiantava cortando as ondas. Por várias vezes, no correr da noite, carreguei todo o meu peso sobre as costas. Todas as coisas podem ser ditas, todas as ideias que chegam ao espírito, por mais abstrusas que sejam, são aguardadas por um enorme fogo onde sucumbem e ressuscitam. De que modo surgiu o azul diante da janela. Um carro rolando. Dois homens cruzaram a ponte. Aí por volta de duas horas olhei o relógio pela vez derradeira. Quando a criada passou pela primeira vez na antecâmara, escrevi a última frase. Apaguei a lâmpada. Claridade do dia. Algumas dores cardíacas. Cansaço desaparecendo pelo meio da noite. Adentrei com passos hesitantes no quarto de minhas irmãs. Leitura. Antes eu me espreguiçara diante da criada, dizendo: “Fiquei até agora escrevendo”. Aspecto de minha cama intacta, como se agora a tivessem arrumado. Certeza adquirida de que o meu processo de compor um romance ressente-se de uma vergonhosa depressão da minha capacidade de escrever. É apenas deste modo, é apenas num idêntico encadeamento que posso escrever,a favor de uma abertura de tal maneira integral da alma e do corpo. A manhã na cama. Olhar sempre desanuviado. Sentimentos vários sofridos no decorrer da redação: por exemplo, o meu contentamento de ter alguma coisa de belo para a Arkadia de Max, recordação de Freud, evidentemente, por vezes de Arnold Beer, de Wassermann, do Gigante de Werfel, também, bem compreendido, do Mundo Citadino.

Diário Íntimo de Franz Kafka, tradução de Torrieri Guimarães.