27.9.10

___conto publicado na edição #32 da Revista Aldeota:

Celeste Maria e o Rato


Viro para o lado esquerdo. Desço as escadas que levam para a lavanderia. Sobre a máquina de lavar, um Rato. Mas o que é isso, deus? Um Rato imundo e robusto diante de mim. Eu, Celeste Maria, que não faço mal a ninguém. Eu, Celeste Maria, que cheiro tão bem. O Rato me encara com olhinhos negros e obtusos. Ele me olha com coragem.
Todos os ratos são estrategistas cínicos. Mas tenho um trato com eles. Fecho as portas antes de anoitecer e eles pernoitam no quintal. Assim o quintal é deles e a casa é minha. Quer dizer, minha e do Waldir. Enquanto eles respeitarem a fronteira e não invadirem meu espaço, não chamo o dedetizador. Desta forma estamos quites.
Agora esse forasteiro peludo veio parar na minha lavanderia. Que audácia! E ainda comeu a ração do Au-au! Oh! Medidas drásticas serão tomadas. Lamento o que está por vir. Subo as mesmas escadas com uma ideia brilhante na cabeça: o frasquinho de veneno cujo rótulo exibe uma caveira como as de pirata. O frasquinho bem guardado no armário de substâncias tóxicas e explosivas.
(O Waldir vive futricando os tais rótulos letais. Acho que é coisa de homem, mesmo. Mexer com o perigo. Subir montanha, dirigir carro a mil por hora, acompanhar briga de galo, trabalhar em cima de um andaime bambo numa construção. Já eu, Celeste Maria, passaria uma vida inteira a contemplar a samambaia suspensa no canto da sala. A fingir que escuto a fofoca disparatada pela apresentadora do programa da tarde, enquanto olho absorta o meu dedão do pé. Nada de adrenalina. Passaria o resto dos meus dias assim. E com uma só condição: limpa. Gosto de me sentir cheirosa. Gosto de casa limpa. Sem poeira, sem barata e, sobretudo, sem rato — tenho uma amiga que domesticou um rato porque não poderia vencê-lo. A casa dela era também a casa dele e ela acabou batizando o roedor de Harry. Mas isso é outra história.)
Já estou de volta à lavanderia. Com o frasquinho de veneno na mão. Sorrateira, desço pé ante pé para não espantar o vilão. E logo diviso o Rato. Triturando com aqueles dentinhos imundos a ração do Au-au. Espero como uma espiã por detrás da máquina de lavar. Uma hora ele abandonará a boia e me deixará livre para executar minha missão. Dito e feito. O Rato foi cheirar uns cantos de parede e, aproveitando a deixa, destilei as gotinhas do veneno no pote de ração. A poção pingou fervilhante. Sorrio no canto da boca, confirmando meu posto de heroína do lar. Subo as escadas tomada por um alívio cansado, imbricado a uma vitória olímpica.
Abro a porta do meu quarto e penso: Ufa, ainda bem que o Au-au tá no pet. E o Waldir tá no banco. Deito sobre o edredom e cochilo como um bebê. Acordo súbito com uns barulhos estranhos vindos da lavanderia. Viro para o lado. Sou surpreendida pelo ranger da porta do meu quarto. Quer dizer, meu e do Waldir. Eu, Celeste Maria, sou surpreendida pela aparição do Rato, que, cambaleante, adentra meu quarto e escala minha cama pela malha do edredom.
Eu, Celeste Maria, estou cara a cara com o Rato moribundo. Envenenado, seus movimentos são ora lentos, ora convulsionados. O maldito do Rato — este pobre animal que nem nome próprio tem — resolveu morrer diante de mim, eu, Celeste Maria. E agora uma culpa tomba espalhafatosa sobre minha consciência como um piano. Eu, Celeste Maria, sou má, sou má e o Harry, quer dizer, este pobre animal sem nome, só queria viver e eu o impedi disto. Eu com minhas malévolas mãos o impedi de transitar por aí, sujo, como ele sabe ser. Eu, Celeste Maria, sou muito má, Rato. Eu, Celeste Maria, vos suplico perdão.
Assim sendo, o Rato estrebuchou durinho. Viro para o lado direito e choro como um bebê.