27.9.10

____conto publicado em 26/09 no caderno Ilustríssima da Folha de S.Paulo:

Querida abóbora


ERA UMA ABÓBORA tão bonita, que a senhora Guga parou perplexa. Nem regateou o preço com o feirante parrudo, meteu-a no saco e levou-a para casa, no colo, como se fosse um bebê. Estendeu a toalha de festas na mesa e nela depositou com carinho e admiração a abóbora mais bonita já vista.
Uma semana passou e a abóbora continuava sobre a mesa de jantar. O tom laranja começava a esmaecer e alguns pontos cinzas surgiam na superfície. A senhora Guga lustrou a abóbora com um paninho úmido, olhou-a com ternura e seguiu impassível a sua rotina tevê, cozinha, banheiro e cama. Outra semana passou e os pontos cinzas pretejavam profundos, rajadas de vermelhos enrugavam a casca antes lisa, que murchava como o rosto triste da senhora Guga. Viam-se algumas moscas minúsculas sobrevoando a abóbora.
A senhora Guga espantava os insetos com um leque e acariciava a abóbora, como quem diz: Não se preocupe, querida, está tudo bem.
Outra semana passou e um fedor tomava a casa da senhora Guga. Era uma espécie de cheiro de lixo misturado com cheiro de animal morto.
Ela não ligou muito, mas comprou um perfume de lavanda para a casa, que mascarou superficialmente o odor.
Outra semana passou e um chorume sangrava da abóbora. A senhora Guga limpava ao redor do fruto e espantava as moscas com afinco e dedicação. Apesar de tanto investimento, o bolor tomava conta de grande parte da abóbora e a toalha que a guarnecia agora estava toda sarapintada de restos putrefatos.
Outra semana passou e a abóbora figurava murcha sobre a mesa de jantar quando o filho ocupado da senhora Guga veio visitá-la.
"Mamãe, o que é isso? Por que a senhora não joga essa abóbora podre fora? Mamãe, isso pode trazer doenças. Mamãe, a senhora está louca? Mamãe, vou tomar providências imediatamente!" A senhora Guga consentiu calada. Sentia-se culpada, mas não sabia o porquê. Seu filho ocupado fez uma ligação e depois de algumas frases peremptórias desligou o telefone. Duas horas depois, quando o oficial de polícia apareceu -balançando o cassetete e fazendo cara de poucos amigos- e recolheu os restos da abóbora podre em um saco preto, a senhora Guga apertou bem os olhos e não entendeu bem onde estava.