5.2.09

_Segue abaixo o meu texto publicado dia 03/02/09 na Megazine, revista para adolescentes d'O Globo:

Balu
Balu só pensava nisso: voltar às aulas. Férias às vezes dão no saco. Férias às vezes deprimem. Férias às vezes anulam o sentido da vida. Pô! Balu e sua vida regrada, pé e mão semanais, francesinha, misturinha, só faço a unha com a Glorinha, roupa de grife lavada, passada, dobrada e empilhada em ordem cromática, arco-íris cem por cento algodão, recheando o armário de fórmica branca. A segurança do quarto branco contrastado pelos pôsteres do Romero Britto, empoeirados ursinhos da Disney sobre os móveis clean de madeira prensada. A segurança do guarda-roupa organizado pela empregada calada. O quarto-reduto de Bárbara Luciana, o tédio abafado, e, sobre a cama queen size, um filtro dos sonhos já escurecido pela fuligem da rua Humaitá.
Ah, mas Balu não ficou enfurnada no quarto, não. Viajou pra praia, pra serra, fez escova no Natal, tomou bala no Reveillon, jogou flores para Yemanjá, o lírio branco, tatuado no tornozelo, já esverdeava os tons pretos. Balu entrava no segundo ano da faculdade, comunicação-mas-não-tenho-certeza-do-que-vou-fazer. Balu entrava no terceiro ano de namoro, o Cauê-é-legal-mas-e-os-outros-caras-como-vou-saber?
Domingo, véspera do primeiro dia de aula: Balu já havia comprado a agenda 2009, estojo, canetas coloridas e os cadernos fininhos, um para cada matéria. Vez em quando ia lá, sobre a escrivaninha branca, alisar as novas aquisições da papelaria. Prazer táctil, sensação de futuro na ponta dos dedos de unha francesinha. Balu gostava de ver a letra correr gorda sobre as linhas azul-clarinho, ela fechava os olhos e adivinhava a manhã que tão-logo despontaria, o café recendendo na cozinha, o perfume doce borrifado no pescocinho.
Bárbara Luciana, presente. Bruno Almeida, presente. Os dois se sacavam tímidos: o flerte instaurado, legitimado, sutilmente escancarado desde o principio, desde quando estavam juntinhos, ela por cima dele, inocentes, safadinhos, registrados na lista de chamada. Claro que agora, no meio do curso, as coisas haviam mudado. Eles faziam matérias diferentes, às vezes as mesmas, mas em horários desencontrados. A cada semestre uma situação nova, o corte à faca, os dados lançados. As eletivas não encaixavam, os trabalhos em grupo não coincidiam, o que tornava aquela atração ainda mais tensa, bolinhas de suor sobre os lábios, coração batendo a mil.
O primeiro dia: quando ela esbarraria o boa pinta por acaso nos corredores movimentados, e, numa conversa casual-disfarçada, calcularia o tempo de convivência com o rapazola de olhos verdes.
– Vídeo popular? Pô!, eu também!
Balu abria o caderno imaculado, a reprodução do Abaporu na capa, enquanto o professor se apresentava e quebrava o gelo com uma piada: Balu escreve algum data pouca, fevereiro, quando um ano novo sai do ovo e a vida adiante espera sentada, novelo rechonchudo de lã, a vida adiante promete, canetas infalíveis, o lápis comprido apontado, cheiro de livro novo, a borracha gorda e virginal, todas as datas generosas, castas, à espera de tudo que se aprende, se ouve, se vê, se sente, daqui pra frente.