22.9.16


A TURMA DO COLCHÃO NA SALA


Um tá cheio de marcas de suco, chocolate e caldo de miojo. O outro já tem bigodes, ironia e uma altura maior que a minha.
Toda sexta-feira ele vinha. De mochila nas costas e minigame na mão.
“Oi, tia.”
O colchão era jogado na sala, entre o rack e o sofá. A geladeira era fornida de alimentos ricos em gordura trans. Uma duna de edredom compunha a paisagem das nossas aventuras. Os farelos dos biscoitos faziam as vezes de areia. E a televisão era o céu.
No colchão era permitido comer, falar os palavrões mais cabeludos e dormir sem escovar os dentes. Na sua superfície esponjosa, praticávamos luta greco-romana, sofríamos ataques impiedosos de cosquinhas, estralávamos os vinte dedos dos pés, exercitávamos o cafuné mútuo, cavucávamos caspa de ambos os cocurutos, penávamos com bafo verdoengo do gato e brincávamos de aviãozinho — mesmo que o peso hipopotâmico do meu sobrinho contribuísse para a formação de uma futura hérnia de disco.

“Pé gelado/mão gelada”— uma das torturas mais cruéis e que consiste em passar a mão ou o pé gélidos nas costas ou na barriga da vítima — só era interrompida depois de se pedir penico. Mas tinha que ser um “penico de porcelana rósea com florzinha”.
Muito se viu ali. Apertem os cintos… O piloto sumiu! 1 e 2. Em busca do cálice sagradoCorra que a polícia vem aí 1, 2 1/2, 33 1/3A vida de Brian.Loucademia de políciaLabirintoBlade RunnerOs caça-fantasmas 1 e 2. Indiana Jones 1, 2 e 3. Spaceballs — S.O.S. Tem um louco solto no espaço. E toda a seção de comédia e aventura empoeirada da locadora.
Inúmeros desenhos da Disney e da Pixar. Mangás mil. Todos os filmes com o Jack Black, Adam Sandler e Ben Stiller. Filmes genéricos e obscuros de comédia sem graça e longas-metragens de terror dublados, cujos monstros grunhiam com sotaque carioca e psicopatas ameaçavam suas indefesas presas com a pronúncia de um surfista do Leblon.
Fora isso, ainda havia a tevê aberta que nos mantinha despertos até a alta madruga. Acompanhávamos, em especial, a novelinha em looping do Super Papo, cujo herói cruzava um hilariante deserto de solidão e atravessava uma viacrucis de comovente amargura — em casa, no escritório e na rua —, até encontrar o grande amor e passear de mãos dadas com a formosa predestinada, no parque, em um dia de sol.
Sol este que já despontava quando a gente resolvia dormir.  Eu via o sono chegar em seus olhinhos amendoados que  lacrimejavam depois de um longo bocejo. Sobre o colchão, fazia o gato de travesseiro e alinhavava as pernocas nas minhas, me imobilizando como um judoca olímpico.
Eu sacava seus óculos para que o aro não entortasse, e era quase sempre nesse momento que ele falava loucuras enquanto dormia. Às vezes caía numa gargalhada abissal, e eu também ria.
***

Outro dia o seu Lourival veio buscar o colchão para dar à sobrinha. Já o meu sobrinho foi morar em Manaus por uns tempos. (Nas férias de julho esteve aqui; ainda de mochila nas costas, minigame na mão, mas calçando 43.) Enquanto a pampa do seu Lourival dobrava a esquina, eu ouvia a gargalhada louca do Benjamin e também ria.
TEXTO PUBLICADO EM  14/08/13, NO FALECIDO BLOG DA FALECIDA COSACNAIFY
(foto: Leonardo Jucá)